Por Carine Felício
Não sei muito o que me fez chegar onde estou hoje, mas o que sei é que cheguei. E sinto que carrego tantos saberes que não são apenas meus, assim como também levei os meus saberes a outras pessoas.
Quando eu comecei a me envolver com a cultura eu me senti um tanto que meio perdida com tanta espiritualidade, e verdade, e curiosidade sobre o que seria o certo, e bem… O que realmente poderia ser considerado cultura?
Já ouvi tantas vezes que não é assim que se faz algo, ou que não é desse jeito que se ajeita certa coisa. Mas com o tempo venho percebendo que a cultura também é feita de preconceitos.
O preconceito é um julgamento hostil antecipado formado formado sobre algo, sem base em experiências reais, sem vivências.
Julgamos com o olhar, com o riso disfarçado, com a “crítica construtiva”, com a sugestão disfarçada de “se eu fosse você faria assim”. O preconceito caminha diariamente ao lado da cultura. E o que eu posso fazer é dar um passo atrás, e incentivar que o meu colega do lado também faça o mesmo quando não achar que a cultura do outro é compreensível ou aceitável.
Quando eu era criança, tinha uma vontade enorme de dançar Reinado. Há muitos anos meu tio avô Carmélio mantém um Terno de Catupé de Cacunda. Lembro do meu pai me levar a casa dele, e quando tinha alguma festa e o terno se formada, ia eu toda faceira dançar. Mas era só um pouquinho.
É. Eu não tinha coragem de vestir a farda, de assumir aquela vontade.
Anos mais tarde, como sempre meu avô materno, Sr. Chiquinho Felício, sempre envolvido com a Festa do Rosário do Bairro da Ponte em minha cidade. E a casa dos meus avós se transformava em época de festa. Minha tia Fatinha, como promessa- o que mantém até os dias atuais- , sempre oferece almoço pra um terno todos os anos.
O almoço como sempre, nunca foi só do terno. Ia a família toda! Eu e minhas primas, tanto na chegada do terno na casa de minha tia, quanto na saída, dançávamos e cantávamos muito Reinado. Mas também era apenas naquele momento.
Minha prima Flávia, seu irmão Róger, e meus outros primos, como Paulo Ricardo dançaram em terno de farda. Se não me falha a memória até meu irmão Rafael, também já participou. Mas eu… eu, sempre tive vergonha.
Não sei ao certo se era uma vergonha por ser uma menina quieta e tímida, ou se era vergonha mesmo de assumir aquilo que fazia meu coração pulsar.
Em 2016, quando conheci meu marido e o Moçambique dos Garcias, eu me envolvi de uma forma que não sei explicar como aquele som que ecoava em meu peito me fez fazer o que eu nunca tinha tido coragem.
Passei a gostar de tantas outras coisas relacionadas ao Reinado e à espiritualidade que já não consigo precisar o momento exato em que me descobri tão consciente da minha própria caminhada.
Hoje entendo que a cultura não existe apenas nas festas, nos cantos, nas danças ou nas tradições. Ela também vive em nossas escolhas, em nossos medos, em nossas descobertas e na coragem de assumir quem somos.
A cultura é o preconceito que eu tinha ontem, mas também é a energia que hoje me permite não desistir de continuar.
A cultura me dá voz.
