Por Carine Felício
Os mistérios de Nossa Senhora do Rosário e dos Santos Reis são coisas que a gente não explica direito. A gente vive.
Como muitos já sabem, eu participo do Moçambique junto com meu marido – e toda a família acaba caminhando junto nessa tradição.
Numa dessas caminhadas, recebemos um convite para participar de uma Festa do Rosário em Ilicínea/MG, cerca de 200 km de Candeias. E como é de costume, quando a gente assume um compromisso com fé, faz de tudo pra cumprir.
Já estava tudo combinado: ônibus marcado, presença confirmada… só tinha um detalhe. O dinheiro da condução ainda não tinha aparecido.
Tentamos de um lado, tentamos de outro, buscamos ajuda da prefeitura, da secretaria de cultura, mas o tempo foi passando. Faltava uma semana e nada se resolvia.
Foi então que aconteceu uma dessas histórias que começam como qualquer outra.
Um grande amigo do meu marido — homem de muita fé — chamou o pessoal para o aniversário dele em seu sítio. Disse que queria muito que a Folia fosse cantar, que aquilo deixaria o dia dele completo.
E onde tem música, companhia boa e mesa farta… lá fomos nós.
Foram os foliões e suas damas.
Chegamos, fomos recebidos com tanto carinho que parecia casa de família. Almoçamos, conversamos, aproveitamos o encontro.
Depois de umas duas horas, com o tempo esfriando e mais gente chegando, meu marido comentou:
— Gente, vamos agradecer esse almoço cantando antes que fique tarde e a gente incomode o pessoal.
Começaram os cantos.
Mas o que era só um agradecimento virou outra coisa.
Os convidados fizeram roda. O povo começou a cantar junto. Nós mulheres também entramos na animação querendo participar.
Então meu marido puxou um verso de Reinado.
Pra quê…
Foi só bênção.
A graça começou com os Santos Reis e caminhou com Nossa Senhora.
Cantávamos uma música, o povo “amarrava” — que é como chamamos quando colocam dinheiro no chão e pisam, pedindo mais canto. E vinha outro verso. Outra cantoria. Outra roda.
E assim seguimos.
Cantamos muito.
O povo cantou junto.
O aniversariante ficou feliz.
E nós também.
As rosas (as notas) foram guardadas na bolsinha da minha bebê, como quem guarda um dia bonito.
Quando chegamos em casa, cansados e felizes, alguém falou:
— Vamos contar esse dinheiro… vai que ajuda no ônibus de Ilicínea.
Sentamos sem expectativa.
Contamos uma vez.
Contamos de novo.
E o valor era exatamente o que faltava para completar a condução da Festa do Rosário da semana seguinte.
Tem coisas que cada um chama de um jeito.
Coincidência.
Providência.
Promessa.
Graça.
Eu só sei que naquele dia os Santos cantaram primeiro… e depois abriram o caminho.
