Entre a distância física e a proximidade espiritual, entre a lente da câmera e a cena a ser capturada, entre a batida da gunga e o encantamento de ouví-la pela primeira vez, havia o espaço destinado ao nosso encontro.

Nos conhecemos na intersecção entre o viver o sagrado e a vontade de entender os seus mistérios.

Nas ruas em festa pela devoção à Nossa Senhora do Rosário, olhos atentos e curiosos encontraram as cores e os sons da fé em movimento.

Na passagem de pesquisadora e interlocutora à amigas, houve a presença.

O convívio entre quem chegou de longe e quem abriu a casa e acolheu. Descobrimos interesses em comum: a vontade de saber e entender sobre o passado, sobre as tradições, sobre a história das festas de reinado na pequena cidade de Candeias/MG, a admiração pelos mestres e todos e todas que possuem o dom de fazer viver o sagrado no cotidiano, que curam, que propagam a fé e ensinamentos fundamentais para a manutenção das manifestações culturais e religiosas tradicionais.

Da nossa vontade de saber e compreender mais e de valorizar a voz dos antigos, veio o projeto de escrever sobre a história do reinado em Candeias.

Mas, enquanto essa ideia descansa na gaveta, afinal, demanda que nos debrucemos em pesquisa e oralidade, estamos aqui, para compartilhar tantas outras coisas e ideias. Porque todo caminho exige um primeiro passo. E, com frequência, pulamos degraus em busca do fim do trajeto.

Desta vez, escolhemos valorizar o percurso, fazendo um pouquinho de cada vez e compartilhando com quem também se interessa.

Nosso compromisso é com o nosso patrimônio cultural, com a força e fé de quem faz viver as tradições, com a pluralidade cultural do nosso país, com a espiritualidade e os saberes que vieram do outro lado do Atlântico com os corpos negros há mais de quinhentos anos atrás.

Nosso manifesto é sobre manter viva a cultura afrocatólica brasileira.

Falamos da fé que se vive no corpo, na memória e no território. Falamos de saberes que atravessam gerações. Falamos de histórias que continuam existindo mesmo quando não são vistas. De vozes que seguem cantando e rezando, de mãos e pés que seguem andando e tocando os instrumentos criados pelos ancestrais.

“Bate essa caixa mais baixo.”

“Não precisa cantar assim.”“Por que dançar desse jeito?”

“Por que se vestir assim?”

E, em outros momentos ainda mais duros: “Festa de preto.”; “Aquela bagunça não me agrada.”

Palavras que ferem não apenas pessoas, mas tradições inteiras.

O patrimônio imaterial cultural brasileiro é feito de dança, canto, espiritualidade e resistência.

É feito de corpos que carregam história em movimento.

As vestimentas, os ritos e os sujeitos que dão força a essas expressões nem sempre são compreendidos, porque vivemos em uma sociedade ocidentalizada, que homogeiniza, silencia e paralisa os corpos.

Mas os fazedores de cultura do Congado, das Folias e de tantas outras tradições não são figurantes. São sujeitos de história, de direito e de memória.

Este território existe para reconhecer isso.

Para registrar, exaltar e honrar essas presenças.

Porque aquilo que é vivo não deve ser silenciado.

Deve ser livre para existir. Deve permanecer.

Carine e Sabrina

Abril de 2026