Por Carine Felício
Hoje eu vou escrever uma história sobre o que é você morar em uma cidade onde tudo já foi…
Contando pra Sabrina que quando eu tinha lá meus 15 anos, Candeias tinha o antigo cinema, que não funcionava em sua função original, mas que acomodava algumas atividades que a gente tinha o prazer de ir.
Eu me lembro das reuniões de jovens, e os encontros vocacionais; também me lembro de ter ido em alguns ensaios de um grupo de teatro que um aluno do Ensino Médio iniciou. O nome dele era Marcos Vinicius. Tinha talento. Eu acho.
O tempo passou, e muitas coisas aqui não seguiram. Não que tudo tenha que seguir. Existem coisas que tem início, meio e fim. Mas depois dessas, sempre vem outras, e outras, e outras.
Mas sinto, e não sinto, que durante alguns anos, em relação a minha cidade, minha terra; por alguns anos, o tempo apenas passou, como em um filme, quando as pessoas congelam (já vi isso em filme ou série, certeza). Só que na vida não foram as pessoas que pausaram. Apenas nossas mentes, nossas vontades, nossas ambições coletivas.
Por um tempo deixamos de pensar como cidade, e vivemos cada um por si.
E nessa lembrança confusa de hoje, misturei um pouco os assuntos, e me lembrei também do quanto era bom a escola. De quanta empolgação tínhamos em coisas simples.
Eu penso que esse Território não é só o local onde nós iremos relembrar memórias e registrar o nosso tão querido acervo cultural. Esse Território também está sendo onde nossos sonhos vão se revelando, e vamos em busca do que faz o verdadeiro encantamento. Ou de tudo.
Me lembrei de ter ido a uma escola, em outra cidade; eu estudava na Escola Padre Américo na época. Dona Marília, a diretora, gostava da minha leitura, e me escolheu pra ir representar a recitar uma poesia. Engraçado como as gavetinhas da mente guardam as palavra-passe, e hoje em dia conseguimos localizar tudo através da internet. Sem esforço nenhum Sabrina localizou, e leu. E ela lendo me visualizei naquele dia, recitando esse poema/poesia, no palco em frente tanta gente, toda envergonhada, mas tão orgulhosa de mim mesma.
É tão lindo e forte que vou reproduzir aqui pra vocês.
“‘Com licença poética’, de Adélia Prado
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos…
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.”
