Ivailton Donizete Moreira: a fé que mantém vivo o Batizado na Fogueira de São João

As tradições populares sobrevivem porque existem pessoas dispostas a guardá-las, praticá-las e transmiti-las às novas gerações. Em Candeias, uma dessas pessoas é Ivailton Donizete Moreira, conhecido por muitos como Ivailton Benzedor ou Ivailton do Moçambique.

Nascido e criado em Candeias, Ivailton dedica parte de sua vida à preservação do Batizado na Fogueira de São João, uma manifestação da religiosidade popular que reúne devoção, compadrio, memória e pertencimento. Há quase duas décadas, ele conduz esse ritual, mantendo viva uma tradição recebida de antigos mestres e fortalecida pela fé do povo.

Nesta entrevista concedida ao Território de Encantamento, Ivailton compartilha suas lembranças de infância, explica como acontece o batizado, revela o significado dos ritos, das orações e dos símbolos presentes na celebração e fala sobre a importância de preservar um costume que atravessa gerações e faz parte da identidade cultural de Candeias.

Mais do que um registro de uma tradição, esta conversa preserva a voz de um guardião da memória, permitindo que seus conhecimentos permaneçam acessíveis às futuras gerações e contribuam para a valorização do patrimônio cultural imaterial do nosso território.

  1. Qual é seu nome completo?

Ivailton Donizete Moreira.

  • Quantos anos o senhor tem?

Eu tenho 34 anos.

  • Nasceu em Candeias ou veio de outra cidade?

Nasci e fui criado em Candeias.

  • O que o senhor faz no dia a dia (profissão ou ocupação)?

Sou agente funerário.

  • Como as pessoas costumam chamar o senhor aqui na cidade?

Ivailton benzedor, Ivailton do Moçambique.

  • Como foi sua infância? Já existia essa tradição na sua família?

Minha infância foi pobre, mas fui bem criado pelo meu pai e minha mãe, que sempre me ensinaram um bom caráter, educação e ser humilde. Na minha família já existia a tradição da fogueira de São João Batista, que era feita na casa do meu tio Marquinho da Dejanira.

  • Quem ensinou o senhor sobre o batizado na fogueira de São João?

Aprendi primeiramente com a senhora Euclídes Paulina Gomes, que aprendeu com o Sr. Chico Prata, da comunidade dos Arrudas. Com o passar do tempo, acrescentei outras orações aprendidas com outros que realizavam o batismo.

  • Há quantos anos o senhor realiza esses batizados?

Há 19 anos.

  • O que fez o senhor começar a fazer isso?

A fé em São João Batista e a luta em dar continuidade às tradições religiosas de nossa cidade.

  1. Para quem nunca viu, como funciona o batizado na fogueira de São João?

O batizado na fogueira de São João é realizado na noite de véspera do nascimento de São João Batista, dia 23 de junho, após às 20 horas ou conforme a regra à meia noite, com a reza do Santo Terço Sertanejo, que é celebrado com cantos e instrumentos, tais como sanfona, viola, cavaquinho, violão, zabumba, pandeiro e maraca. Logo após, é feita a levantação do Mastro com a Bandeira de São João Batista pela Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário, seguindo a tradição afrobrasileira. Em seguida, dá-se início aos ritos do batismo. Cada pessoa, criança, jovem ou adulto que queiram ser batizados, escolhem 3 padrinhos para representa-los e confirmar a fé. O batismo é feito com o celebrante (que segue os preceitos para realizar o batismo), o que vai ser batizado, seus pais e os padrinhos. Dão 3 voltas em sentido horário ao redor da fogueira, levando a vela que foi abençoada na sexta-feira da paixão, um coité com a água da fonte que é coletada na sexta-feira santa antes do sol sair, e junto com a água de um rio ou cachoeira que é coletada por um casal casado no religioso e no civil no dia 23 antes do romper da aurora, rezando a oração do Vinde Espírito Santo, Salve Rainha, Um Pai Nosso e 3 Ave Marias. O celebrante confirma a fé do que vai ser batizado e confirma o compromisso entre os padrinhos e a pessoa que vai ser batizada com 3 perguntas de confirmação. Logo após, o celebrante asperge a cabeça do que está sendo batizado com ervas típicas do ritual, arruda, alecrim e manjericão, pronunciando a benção em nome de São João Batista e as 3 pessoas da Santíssima Trindade. O padrinho com a vela acesa faz o sinal da cruz na testa da pessoa que foi batizada e lhe põe a benção. A primeira madrinha enxuga a cabeça, a fonte com uma toalha branca e também põe a benção. A segunda madrinha faz o sinal da cruz na testa do que foi batizado e coloca uma pitada de sal bento na boca do afilhado em sinal de que ele seja o sal da terra, e frutifique a sua fé, e contribua com sua fé para o bem da humanidade. O celebrante deseja votos de fé, proteção, saúde e alegrias em nome de São João Batista.

  1. Existe algum significado especial nessa tradição?

Sim. A tradição da fogueira de São João Batista teve seu início nas comunidades rurais, pelos mais simples e humildes, devido às regras religiosas para o batismo na igreja. Nasceu assim o acolhimento e apadrinhamento daquelas pessoas que por motivos não podiam ser padrinhos na Igreja Católica, firmando assim o vínculo de fé, carinho uns para com os outros.

  1. Tem oração, promessa ou algum ritual específico?

Sim, a oração já é passada por pessoas do passado. Antes do momento do batismo, o celebrante reúne em oração com um casal em preparação pedidos e permissão a Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. E pede a intercessão de São João Batista e a luz do Divino Espírito Santo. Em seguida, o mesmo retira do interior da fogueira brasas e forma um sinal de cruz no chão com estas, simbolizando a fé cristã. Coloca-se 3 punhados de sal bento nessa cruz em brasa no chão e segue-se o batismo.

  1. Quem pode participar? Criança, adulto?

Todas as pessoas, independente de classe social, crianças, jovens e adultos, desde que tenham fé cristã e devoção a São João Batista e o mesmo tenha responsabilidade e consciência da seriedade, do compromisso na fé que está assumindo, pois padrinho e afilhado é pra vida toda.

  1. Como escolhem padrinho e madrinha?

Os padrinhos são escolhidos a gosto do afilhado ou dos pais.

  1. Existe alguma regra que precisa ser respeitada?

Sim, a regra é que marido não pode batizar mulher e vice versa. Batismo na fogueira é feito uma vez só na vida, a não ser que os padrinhos sejam falecidos. Não se pode negar a benção aos afilhados e deve-se pronunciar a benção em nome de Deus: “Deus que te abençoe.”

  1. O senhor lembra do primeiro batizado que fez?

Sim. Foi uma noite de muita fé, devoção, religiosa e de muita emoção. Era uma noite fria em que eu estava ansioso pela responsabilidade assumida. Lembro eu em que a lua cheia iluminava o céu e a fumaça da fogueira subia em direção as estrelas, e eu pensava na noite do nascimento de João Batista; na sua fé cristã, e pensava naqueles que no passado eram responsáveis pelo batismo.

  1. Tem alguma história marcante que nunca esqueceu?

Sim. Em um ano em que eu realizava o batismo na fogueira, o nosso próprio pároco da época esteve presente na celebração sendo padrinho de um jovem, e o mesmo pronunciou a benção, confirmando a nossa fé nas tradições. Lembro também de todos os meus afilhados de fogueira de São João Batista.

  1. Aproximadamente quantas pessoas o senhor já batizou?

Aproximadamente 500 pessoas aos longos destes 19 anos.

  1. O que mais emociona o senhor nesse momento?

A fé do povo, a responsabilidade dos meus atos e a união dos devotos de São João. Me emociono em ver novos vínculos familiares sendo criados através da fé no batismo na fogueira.

  • O senhor hoje é quem mantém essa tradição em Candeias. Como se sente com isso?

Me sinto muito honrado em dar continuidade ao que os nossos antepassados nos deixaram em sinal de fé na cultura religiosa. E enquanto Deus me der vida e saúde eu irei continuar.

  • Acha importante preservar esse costume?

Sim. A importância em dar continuidade é levar um legado cultural e dar continuidade a uma tradição quase extinta.

  • Tem alguém aprendendo com você para continuar no futuro?

Sim.

  • O que o senhor diria para quem nunca participou?

Faço um convite, que venha participar e conhecer esta tradição. Um momento espiritual, religioso; um ato de fé, devoção e carinho.

  • O que São João representa para o senhor?

Um exemplo de fé, pregador, anunciador do Reino de Deus. Representa a fé de um povo que recorre ao seu intercessor perante a Deus nos momentos de alegrias, necessidade em busca do auxílio de Deus.

  • Que mensagem deixa para o povo de Candeias?

Ao povo de Candeias peço que lutem pelas nossas tradições culturais e religiosas e que quando receberem um convite para serem padrinhos na fogueira, aceitem com todo carinho, fé para com Deus e para com seu afilhado, pois a emoção em receber um afilhado e ser padrinho não tem preço.

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