Candeias/MG é uma cidade esquecida?

Créditos da imagem: site: Prefeitura Municipal de Candeias

Por Carine Felício

Eu moro em Candeias, estado de Minas Gerais. Eu nasci aqui.

Quando criança eu tinha tantas expectativas sobre onde eu vivia, e eu nem conhecia todos os cantos daqui. Ir à uma festa ou no centro da cidade era um evento mágico, porque me sentia importante, e sentia que aqui realmente era um lugarzinho especial no mundo.

E quando os anos foram se passando, tudo o que eu expectava sobre meu município de origem e residência deixou de ser importante, porque o que vale pra uma adolescente é somente o amor e suas nuances. O primeiro beijo, o primeiro amor, as amizades “verdadeiras”, os sonhos da vida adulta…

E hoje, na vida adulta, o que realmente me importa é o que ficou pausado lá atrás: descobrir sobre onde eu vivo.

Só que o tempo passa, e muitas coisas que antes estavam na superfície, hoje se enterraram mais fundo, e é preciso que eu cave mais fundo. E reconheço que necessito de auxílio pra realizar escavações históricas, já que cursei direito (e não história!, rs). Mas graças a Deus eu conheci a pessoa ideal pra isso, minha amiga/irmã Sabrina, minha parceira nesse projeto maravilhoso que é o Território.

Sei e valorizo a construção de história a partir do que somos e do que queremos deixar de legado aos nossos sucessores, mas é importante que saibamos os valores que sustentam nossa trajetória, preservam nossa identidade e garantem a continuidade de nossos propósitos ao longo do tempo.

E tudo isso me faz pensar se Candeias é uma cidade esquecida.

Existe um conterrâneo chamado Armando Castro de Melo. Ele mantém um grupo no Facebook, “Sô das CANDEIAS, com muito orgulho…”, e também um blog, “Casos e Acasos”. Grande escritor, o Sr. Armando, apesar de não residir mais na cidade, conserva o virtuoso hábito de guardar lembranças sobre o que viveu aqui. Mais do que isso, incentiva outras pessoas a fazerem o mesmo. Tanto o grupo na rede social quanto seu blog estimulam e ajudam a divulgar o que foi a nossa Candeias no passado.

Quando leio seus textos ou as publicações do grupo, sinto-me incentivada a fazer o mesmo: realizar constantes escavações em busca daquilo que considero necessário que os cidadãos candeenses saibam sobre o lugar onde nasceram e onde vivem. Principalmente quando percebo que a cidade, embora tenha sido construída e desenvolvida em torno da burguesia e da história das famílias tradicionais, pouco conhece sobre a verdadeira origem de seu povo.

É nesse contexto que surgem tantas histórias mal contadas e tantas oportunidades de fabulizar, acrescentando vírgulas à realidade e transformando fatos em supostas “narrativas dos antepassados”. Antepassados estes que já partiram e não estão mais aqui para confirmar se tais palavras realmente saíram de suas bocas.

Candeias não é uma cidade esquecida. Mas também não é utopia.

Na obra Utopia, de Thomas More, idealiza-se uma sociedade organizada e aparentemente perfeita, construída a partir de regras rígidas e de uma visão específica de bem comum. E é justamente essa idealização que, por vezes, parece contaminar a forma como contamos a história de Candeias.

Alguns tentam apresentar a cidade como um lugar sem contradições, onde o passado deve ser lembrado apenas por suas virtudes e conquistas. Como se bastasse exaltar a luta, a garra e as vitórias para compreender quem somos.

Mas nós, cidadãos negros e pobres, também fazemos parte dessa história. E a nossa trajetória não pode ser contada apenas pelos triunfos. Ela precisa incluir os silêncios, as exclusões, as desigualdades e os conflitos que ajudaram a moldar a cidade que existe hoje. Valorizar Candeias não significa transformá-la em uma utopia. Significa reconhecê-la em sua inteireza: com seus méritos e suas falhas, suas conquistas e suas injustiças, suas glórias e suas feridas.

E é esse o meu objetivo aqui no Território. Quero falar sobre muitas coisas. Mas, acima de tudo, quero descobrir Candeias junto com todos vocês. A Candeias que vejo nas postagens do Sr. Armando, a que encontro nas fotografias e nas lembranças de quem viveu aqui, a que eu mesma vivi nos anos 90 e a que continuo vivendo hoje.

Quero conhecer a cidade para além dos discursos prontos, das versões romantizadas e das histórias contadas sempre pelos mesmos personagens. Quero ouvir as vozes que ficaram à margem, resgatar memórias esquecidas e compreender como chegamos até aqui.

Porque uma cidade não é feita apenas de seus prédios, de suas ruas ou de seus sobrenomes tradicionais. Uma cidade é feita de gente. De todos os que nasceram, viveram, trabalharam, sonharam e ajudaram a construir este lugar.

E talvez seja justamente nesse encontro entre memória, história e realidade que possamos descobrir, juntos, a verdadeira Candeias. Não a cidade idealizada. Não a cidade esquecida. Mas a cidade real, com todas as suas contradições, riquezas e possibilidades.

*Texto feito por inteiramente por um humano.

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